Era um fim de tarde e ela mais uma vez voltava do trabalho angustiada. De que me serve essa relação? Se lembra da fala da analista: “Pra que você precisa desse homem nesse momento de vida?” Perguntas sem respostas.

Não porque não tenha resposta. Mas porque até falar baixinho para si dói tanto que ela afasta qualquer ideia que surja. Ela sabe que está num jogo. Sempre uma vai sobrar. E ela não se presta a jogos nem às sobras (texto continua abaixo da foto).

Deise Dias de Souza é psicanalista, mestra em psicologia pela UFMG www.deisedias.com.br Instagram @deisediaspsi Facebook.com/deise.dias.507 Facebook.com/psicanalisedeisedias/

Mas ela sabe que tem que decidir. É preciso. Ela não é mulher de metades. Ele a busca, diz que gosta mas não se entrega. “Sou assim.” Ela o aceita como é. Com toda a bagunça e problemas. Mas ela é dessas que não divide nem chocolate. Que dizer de um homem. Nem se fosse um contadinho.

Mas ele foi muito mais do que ele consegue imaginar. Até porque ele prefere não enxergar o que está perto. Assim fica mais fácil. Prá que investir numa relação quando a oferta é tão grande. Um match hoje, amanhã um “ei sumido” nas redes sociais. Vício de quem já viveu muito, já sofreu e escolheu não arriscar mais.

Ele escolheu não se entregar ao amor de uma mulher, ou pelo menos ao amor dela. Ela é diferente. Ela enterra o passado para ficar livre e se entregar ao novo de peito aberto. Por isso é insuportável esperar por ele e intuir que ele não vem. Estará ocupado com os problemas ou entretido com as amigas suculentas?

Ela chega a pensar que está com ciúmes ou paranóica. Mas logo a verdade vem mostrar que sua inquietação já era sinal de uma triste realidade. Ela não suporta mais. Pega o celular e começa a digitar apressadamente:

“Embora eu esteja extremamente desestimulada a debater ou mesmo dialogar com você, gostaria de falar essas últimas palavras. Nossas discussões não nos levam a nada. Eu tenho respeito por você como ser humano. O que parece não ser recíproco. Todo ser humano tem sua dignidade, reconheço a sua, mas tenho que aceitar, você não reconhece a minha. É assim que é. Fazer o quê? Quem falou que a vida é justa? O encontro de duas pessoas é mesmo difícil, porque cada um de nós é muito singular. Eu sou madura, ou seja espero ser, como você mesmo disse. E por isso entendo que é preciso, pelo menos, objetivos em comum entre as duas pessoas com relação ao relacionamento. Restou-me uma dúvida: acaso você citou o meu percurso agora um pouco mais longo pela vida como a dizer que eu devo aceitar tudo que um homem quiser propor? Não quero resposta, reflita e guarde-a para você. Eu já mencionei de diversas formas possíveis, já bradei, escrevi de todas as formas: não aceito e não conseguirei aceitar outras mulheres com você, enquanto estiver comigo. Seja algo casual ou de qualquer outra forma. Meu caro, não há como modificar certas coisas nas pessoas. Nem eu mudo meu ponto de vista e nem você o seu. Só nos resta respeitarmo-nos e nos afastarmos. Tenho vivido numa “montanha-russa”. Não… não é nada divertido, porque o prazer que eventualmente me dá na cama e fora dela, você me retira todo em poucas horas e o sofrimento é bem maior. Vivo sobressaltada. E já me perguntei: desde quando sou assim?. Não, nos meus outros relacionamentos não era assim. É claro que o que eu sinto é responsabilidade minha. Também é minha e somente minha tarefa de procurar uma vida melhor, saudável, razoavelmente feliz, realizada e desenvolver todas as minhas potencialidades. A você também cabe cuidar de ser feliz e realizado. No quesito felicidade e saúde, por exemplo, eu poderia incluir um relacionamento. Mas pensa o que teria que acontecer para atingir esse objetivo? Qual tipo de parceria é necessária? Aquela que me dê paz, satisfação vontade de fruir a vida intensamente. É claro que não acredito em vida cor-de-rosa, problemas sempre haverá. Você sinceramente acha que nosso encontro me dá isso? Não precisa responder. Não é o que tenho vivenciado. Imagina se durar mais tempo isso, os problemas que teremos. Não quero nem imaginar, sabe porque? Por que lutei muito até hoje para ser a mulher que sou. Como falei é responsabilidade minha. Eu quero muito que você seja feliz do jeito que achar melhor. Te considero muito. Você é um homem interessante, inteligente e uma pessoa divertida, mas não é para mim, porque o seu modo de pensar uma relação não combina com o meu mesmo! Quero te solicitar encarecidamente para não me procurar mais. Eu não tenho a mínima disposição para viver dessa maneira. Por favor, peço esse mínimo respeito. Enfim… vamos em frente nas nossas vidas, porém em caminhos diversos.”

Ela lê, relê e pensa: terei coragem? Nesse momento Luiz Melodia canta no rádio: “Uma mulher não deve vacilar”. Ela parece ouvir a voz da analista dizendo: senão ela lava roupa todo dia.

Pronto. Um enter e a vida seguirá seu curso.

*Um texto fictício baseado em histórias ouvidas pela vida afora e relatos clínicos do atendimento de mulheres e casais.

Deise Dias de Souza é psicanalista, mestra em psicologia pela UFMG

Blog www.deisedias.com.br

Instagram @deisediaspsi

https://www.facebook.com/deise.dias.507

https://www.facebook.com/psicanalisedeisedias/



Comentários

comentários