Moradores da Vila dos Marmiteiros participam de atividades sobre Justiça Ambiental

Vila dos Marmiteiros foi construída entre os bairros Padre Eustáquio e Coração Eucarístico. Fotos: Paulo Henrique Lobato / Jornal do Padre Eustáquio.

 

Com a mesma idade de Cristo (33 anos), Paloma Ancieto também carrega Jesus no nome de batismo: Paloma Ancieto de Jesus. Moradora da Vila São Vicente, entre os bairros Padre Eustáquio e Coração Eucarístico, na região Noroeste de Belo Horizonte, ela e o marido criam três filhos com uma renda média em torno de R$ 500 numa quebrada castigada pelas consequências da desigualdade ambiental: a pequena comunidade, com população estimada entre 1 mil e 1,5 mil pessoas, sofre com constantes alagamentos durante a época de chuvas fortes.

 

 

Para capacitar moradores da vila sobre a importância da preservação do meio ambiente e da necessidade de fomentar debates de temas ligados à Justiça Ambiental, o Jornal do Padre Eustáquio, no âmbito do Projeto Planeta Território, (saiba mais no fim desta reportagem), realizou atividades com pessoas da comunidade, também conhecida como Vila dos Marmiteiros, em alusão ao fato de os primeiros moradores, na década de 1940, saírem para o trabalho com marmitas em mãos.

 

Vinte e dois moradores de diferentes idades, credos e raças participaram das atividades. A primeira foi uma palestra ministrada pelo repórter Paulo Henrique Lobato sobre Justiça Ambiental, incluindo temas como as consequências de mudanças climáticas na periferia, o racismo ambiental, a equidade ambiental, entre outros, foi lançado um concurso: os participantes deveriam apresentar uma redação, desenho, maquete, poesia ou música sobre o tema.

 

Todos os 22 participantes foram contemplados com uma quantia em dinheiro por participarem da palestra e do concurso. (Importante reforçar que a palestra, que foi seguida de debate, foi possível após três encontros on-line promovidos pelo Território da Notícia com jornais de periferia de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo).

 

Paloma, a mãe de três filhos que carrega o nome de Jesus na certidão de nascimento, foi a grande vencedora do certame. Ela elaborou uma maquete utilizando materiais descartados, sobretudo papelão, para mostrar a desigualdade ambiental vivida diariamente pelos moradores da Vila dos Marmiteiros (veja vídeo abaixo). “Não pode regiões ricas produzirem coisas que afetam o clima, por exemplo, e o pobre sofrer as consequências”, desabafa.

 

 

Uma dessas consequências citadas por Paloma são os sucessivos alagamentos na Vila dos Marmiteiros, que aumentam o risco de doenças. A água suja invade barracos, leva ratos e outros animais para os casebres. “Tem gente que perde tudo”, complementou Alan dos Santos Ferreira, de 14 anos. Estudante do último ano do ensino fundamental, ele participou do concurso com um desenho sobre justiça ambiental (veja vídeo abaixo).

 

 

Apesar da pouca idade, Alan é experiente em ver como a desigualdade ambiental prejudica a favela dos Marmiteiros, onde boa parte da população é parda ou negra, justamente as maiores vítimas da falta de saneamento básico em todo o Brasil. “É o pessoal que mais sofre com degradação do meio ambiente”, disse.

 

Alan é neto do grão-mestre Dunga (foto mais abaixo), considerado uma lenda viva da capoeira. Baiano de nascimento e mineiro de coração, o nome de batismo de Dunga é Amadeu Martins. Aos 77 anos de idade foi soldado, preso político, compositor, massoterapeuta… E também construiu a Senzala do Mestre Dunga, que fica na vila e gentilmente foi cedida ao Jornal do Padre Eustáquio para a realização das atividades junto aos 25 moradores da quebrada (veja vídeo abaixo).

 

 

Sobre o Projeto

 

Estas atividades (palestra e concurso sobre Justiça Ambiental) fazem parte do projeto Planeta Território, desenvolvido desde 2022 para ampliar a pauta do clima entre as mídias periféricas, além de promover o letramento climático nas periferias por meio da veiculação em nossa plataforma de distribuição.

 

O Planeta Território, por sua vez, é um projeto do Território da Notícia (clique aqui para acessar o Instagram), iniciativa que desenvolve soluções tecnológicas para distribuição de conteúdo de interesse público produzido por mídias periféricas. Liderado pela Periferia em Movimento e o Desenrola e Não Me Enrola, o Território da Notícia já entregou mais de 2,5 mil notícias e reportagens de 19 mídias parceiras por meio de 15 totens digitais instalados em estabelecimentos comerciais nas periferias da cidade de São Paulo. Futuramente, a proposta é chegarmos a outras localidades.

 

 

Sondagens

Durante os encontros foram realizadas enquetes com os participantes. Dos 22 moradores, a grande maioria (16 pessoas, o que corresponde a 72,7%) não tinha ouvido falar, até então, sobre Justiça Climática. Ainda assim, após tomarem conhecimento de conceitos ligados ao tema, 20 pessoas (90,9%) disseram estarem dispostas a participar de ações comunitárias ligadas à Justiça Climática ou à Ambiental. Dos 22 moradores, somente 6 (27,2%) dizem saber que há ao menos alguma iniciativa na comunidade que possa ajudar no combate às mudanças climáticas. Eles, contudo, não souberam aprofundar quais são estas iniciativas.

 

Em relação ao acesso á informação, 40,9% (9 pessoas) consideraram o alto custo para acessar a internet. Empatados em segundo lugar, com 18% dos participantes, justificaram a falta de tempo e internet de baixa qualidade. Talvez por duas das três respostas acima (alto custo para acessar internet e internet de baixa qualidade), a maioria dos participantes (59%, ou 13 pessoas) afirmaram que a TV Aberta ainda é uma grande fonte de informações para eles. Em seguida, redes sociais Tik Tok (40%) e Instagram (27%). O WhatsApp foi respondido por 7 pessoas (31,8%). Importante reforçar que, nesta enquete, cada morador poderia responder três opções.

 

Outra curiosidade importante ficou a cargo de qual dispositivo as pessoas mais utilizam para acesso à informação. Nenhum respondeu computador. As respostas se resumiram a três equipamentos: celular (63,6%, TV (59%) e rádio (22,7%). Os percentuais ultrapassaram os 100%, pois cada participante pôde responder mais de uma alternativa.

 

A enquete também quis saber qual tipo de informação os moradores procuram. Neste caso, notícias de famosos (31,8%) ficou em primeiro lugar. Em segundo, notícias do bairro e da comunidade (27,2%). Ainda nesta pergunta, a resposta meio ambiente e sustentabilidade foi citada por 18% dos entrevistados.