Nestes tempos em que a crise se agrava surgem, cada dia mais, defensores da volta dos militares ao poder. O regime militar foi instituído no Brasil em 9 de abril de 1964 e perdurou por 21 anos.

Descendente de italianos, José Lúcio Bonani é morador do Carlos Prates e integrante do grupo que trabalha em favor do bairro. É voluntário em serviços sociais

Logo após tomarem o poder, os militares decretaram o Ato Institucional Numero 1 (AI-1), cassando os mandatos políticos dos opositores, além de impor restrições às liberdades e à participação política dos cidadãos.

Não pretendo fazer juízo de valor sobre o Regime Militar na história do Brasil; apenas relembrar um fato pouco conhecido que ocorreu no bairro Carlos Prates relacionado à ditadura imposta pelo regime.

Exatamente no que tange à restrição da participação política dos cidadãos, o regime militar de 1964 retirou a representatividade da União Nacional dos Estudantes (UNE) por meio da Lei Suplicy de Lacerda. A entidade, legitimada desde 1937, na era Vargas, passou a atuar na clandestinidade.

Mesmo assim, o XXVIII Congresso da UNE, que escolheria a nova diretoria, foi marcada para acontecer em Belo Horizonte (o artigo continua após a imagem).

 

Igreja São Francisco das Chagas faz parte da história da UNE. Foto: Paulo Henrique Lobato

Lideranças de todos os estados brasileiros chegaram para o congresso, se hospedaram no Convento Dominicano (rua do Ouro, na Serra), que ficou cercado por fotógrafos e repórteres do Rio e São Paulo, além de agentes do Departamento de Ordem Politica e Social (Dops), das Forças Armadas e da PM. Muitos disfarçados de estudantes. Também havia curiosos. Todos queriam saber onde seria realizado o Congresso da UNE.

Na data marcada, 28 de julho de 1966, a edição do Jornal Diário de Minas dava conta de que mais de cinco mil homens da policia e do exército se encontravam de prontidão nos quartéis, no Dops, na Guarda Civil… A missão deles era impedir a realização do congresso dos estudantes. Mesmo com sua entidade ocupada pelos militares e a tensão nas ruas de BH, com soldados tomando as vias e defendendo prédios públicos, os estudantes insistiam que o Congresso ocorreria às 20h, na rua Gonçalves Dias, 1581.

Naquela noite, um jovem estudante de medicina da UFMG entra na Igreja São Francisco das Chagas, no bairro Carlos Prates, e aguarda pacientemente na fila… Enfim se dirige ao confessionário. Lá, após a confissão, a voz oculta de um frade franciscano orienta o jovem a descer para a cripta da Igreja, onde outro jovem o aguardava e lhe indagou: “O maior papa da história foi João XXIII”.

O jovem estudante de medicina retruca: “Não, foi Paulo VI”. Esta era a senha para adentrar a sala onde se realizava o congresso estudantil da UNE.

Ao fim do congresso, este jovem estudante de medicina, chamado José Luis Guedes, sairia sorrateiramente da igreja conclamado como novo presidente da UNE.

Os frades franciscanos, simpáticos às causas estudantis e que permitiram a reunião na igreja, mesmo interpelados pelos militares, nunca conseguiram esconder a admiração que sentiam por aqueles jovens estudantes que ousaram enfrentar o regime na luta pelos seus ideais.

No final dos anos setenta, com o enfraquecimento do regime militar, a UNE ressurgiu e segue com liberdade nas suas lutas.

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