O bonde em exposição no Museu Abílio Barreto é o que sobrou de uma frota que deslizava sobre os trilhos do Carlos Prates e Padre Eustáquio, num ritmo lento que beneficiou boas prosas e, claro, acelerou namoros.

Antiga rua Mauá, Nossa Senhora de Fátima foi rota dos bondes

O vaivém dos bondinhos na antiga rua Mauá, hoje avenida Nossa Senhora de Fátima, e na tortuosa estrada Contagem, atual Padre Eustáquio, acabou em 1963, pondo fim a uma época que ainda deixa saudades nos ex-usuários.

 

O aposentado Salus Pereira, de 64 anos, era passageiro frequente da linha e coleciona divertidos causos. Ele está sempre disposto a contá-los a quem quiser um dedo de conversa sem horário para terminar.

“Quando o bonde se aproximava dos pontos, o condutor reduzia a velocidade e a gente descia com o veículo ainda em movimento. Eu era pequeno, inexperiente. Daí, quando eu descia, ‘catava cavaco'”, recordou.

Salus ainda se lembra com detalhes do cemitério dos bondes. Ficava num terreno onde hoje é o PAM. “Os veículos sucateados eram levados para lá, onde também havia dois campos de futebol. Um deles era o do extinto Juventus. Joguei muita bola nele”.

Mas a época dourada dos bondinhos começou bem antes de o aposentado nascer. Corria o ano de 1947 quando todas as linhas da cidade contavam com 75 veículos. Circulavam em linhas entre o Centro de Belo Horizonte e bairros periféricos.

A do Padre Eustáquio era uma das mais movimentadas. Naquele ano, os trilhos atingiram 73 quilômetros de extensão em toda cidade. Pode até parecer uma soma pequena, mas vale lembrar que o metrô, atualmente, percorre “apenas” 28 quilômetros.

Último da linhagem, bondinho que fazia a rota Padre Eustáquio-Centro descansa no museu Abílio Barreto. Crédito: Museu Abílio Barreto/divulgação

E por que os coletivos sobre trilhos acabaram? Por uma soma de fatores, sobretudo, pela falta de investimento público e pressão de grandes empresários do segmento de ônibus.

O sistema dos bondes era operado pela administração municipal, que não tinha recurso suficiente para ampliá-lo. Resultado: foi a brecha para o crescimento das linhas de ônibus. E, claro, da pressão dos empresários para a ampliação do modal.

Em 1963, o bondinho hoje em exposição no Abílio Barreto desceu o Padre Eustáquio e o Carlos Prates para nunca mais voltar. Não passou mais em frente aos antigos cinemas da rua Padre Eustáquio, onde moradores assistiram clássicos como Zorro e Tarzan.

 

Em julho, o portal de notícias Jornal do Padre Eustáquio publicou uma reportagem sobre os quatro cinemas da rua Padre Eustáquio. Se desejar saber como estão os prédios que abrigaram o São Carlos, o Azteca, o Progresso e o Padre Eustáquio, clique aqui.

 

 

 



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