Padre Eustáquio,

    

Eu…mãe!

Eu mãe! (por Sílvia Prata)

Sílvia Prata Moreira é graduada em artes plásticas, com mestrado em novas tecnologias. Professora de dança em projeto social para a terceira idade

 

Eu…mãe!

Um envelope na mão, lacrado, e tantos pensamentos de tantas histórias, contadas pelos outros e ainda não vivida por mim. Um envelope de respostas ou seria de perguntas?

Nem eu mesma ainda saberia. Tanta coisa nos meus pensamentos nos últimos dias, passado e futuro que se misturavam numa tênue linha do inesperado.

O coração na boca ou na mão, sento em uma cadeira qualquer que nem me lembro e olho para o envelope em minhas mãos. Sinto um torpor que invade a minha cabeça e transforma os meus pensamentos em viagens. Abro o envelope e seguro aquela folha. Tão pouco escrito ali diante do mundo que já estava chegando.

A palavra “Positivo” fez girar meu corpo e meu coração parou por uns instantes diante do inesperado já tão esperado.

Nos nove meses que se seguiram, a transformação era vista e sentida. Eram dois em um. Eu e você. Um dentro do outro. Dois corações que batiam num mesmo compasso.

Meu estômago já não me obedecia e atacado de ânsias colocava para fora o que eu teimava em engolir. Meus pés inchados me faziam parar a cada caminhada e o sono que era tamanho, interrompido pelas mudanças bruscas por sua melhor posição, naquele lugar que já estava ficando pequeno para ti.

Às vezes a vontade louca de ir ao banheiro se misturava num desmaio de ir ao chão. Mas o sal na ponta da língua me erguia de novo e de novo e tantas vezes.

Te chamavam de feto. Eu já te chamava de Meu filho.

Numa noite, de um dia diferenciado, uma água rolou pelas minhas pernas num aviso do que viria. Era chegada a hora e o meu mundo parou. Os pensamentos saíram de dentro da cabeça e ela ficara ôca por dentro.

Seu primeiro choro me fez pensar que você estava pronto. Já respirava sozinho. Seu coração já batia em outro compasso.

Mas quanta ingenuidade de um coração de mãe. Ali era o começo. Uma história a ser escrita e tanto ainda para descobrir.

Ter mãe é muito diferente de ser mãe. Eu descobria isso a cada tempo.

Da alegria da chegada, a minha vontade de voltar pro colo, pros braços e pra dentro da barriga. Queria as respostas prontas para tantas perguntas. Tudo era tão novo que eu me perdia em tentar entender.

Era um choro, um soluço, um engasgo. Era dor de barriga, ouvido. Era manha. Era eu, acordada de madrugada rezando para que a febre baixasse.

Mas a alegria te ver, de te ter, era maior que todas as dores, todas as noite mal dormidas e a medida que eu aprendia respostas, você vertiginosamente crescia e eu me perdia para tentar entender o seu processo.

Do primeiro dente, da festinha das mães e a entrada para a escola, veio a alegria do segundo filho. E eu achava que já sabia de tudo. Que a primeira experiência me dera um diploma de como fazer correto todas as coisas. Mas um coração nunca é igual ao outro e cada qual bate em compassos diferentes.

E eu fui aprendendo a ser melhor. Meu mundo mudou a direção. Meus planos e projetos não eram apenas meus e sim um emaranhado de vontades de todos. Fui entendendo que vocês nunca estariam prontos pra vida. Que o cordão invisível é eterno. Aquele mesmo que ainda me liga a minha mãe. Ah, a minha mãe, que viveu tudo isso e eu tantas vezes achei que era demais e hoje faço tudo tão igual, tão cópia. Descobri que somos tão parecidas como tantas, que o materno nos coloca em igualdade de pensamentos e ações.

Hoje vejo na foto que vocês ficaram maiores que eu. Mas meu coração que tem o tamanho de uma mão fechada cabe os dois lá dentro. O sentido para tudo hoje é viver em dupla emoção.

Um dia vocês se casam e começam uma nova história. Com tanta tecnologia nem vão haver envelopes de perguntas e respostas. O mundo vai girar e rodopiar diante de vocês e de repente vão perceber que são a nova cópia, igualzinho em tantas e tantas emoções. Porque o amor é que faz a gente ficar assim.

Eu amo vocês, meus filhos, isso é para todo o sempre.

Paula, já estou indo preparar sua janta.
Lucas, leve a blusa de frio e cuidado com essa moto…oh meu Jesus amado!

Saudade do tempo que vocês cabiam na palma da minha mão…

Sílvia Prata
10 de maio de 2018



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