Eduardo Machado foi meu professor de educação religiosa, lá no colégio do Padre Candinho. Colégio Paroquial Nossa Senhora da Conceição. Década de 70. Tanta coisa aprendi com o Eduardo. Aquela voz calma e serena. Sempre tinha uma coisa bacana pra dizer. Entrei nesta época pro grupo de jovens da paróquia e ele era o dirigente. Seguimos muitos anos juntos. Muito bom agora trazer uma de suas muitas histórias contadas por aí.
Venha se encantar… Eduardo Machado hoje vai contar sobre Brasília. (Sílvia Prata)

Foto: Embratur / Divulgação

Esquinas

Voltei de uma viagem a Brasília com uma fobia muito especial, uma espécie de “ágorafobia” às avessas. As largas avenidas, os vastos espaços livres, a imensidão das quadras, provocaram em mim uma
claustrofobia ao contrário: senti falta de esquinas.

Brasília é uma cidade cujo desenho arquitetônico não favorece a ocorrência de cruzamentos e consequentemente de esquinas.

Saí uma noite do hotel, a pé, outro absurdo na capital pensada para automóveis, e atravessei, angustiado, gramados enormes, vias expressas intransponíveis, em busca de um prosaico boteco onde tomar um chopp e jogar conversa fora.

Como não estava no setor da cidade planejado para esse tipo de atividade, retornei ao hotel frustrado.

Foi um alívio voltar a Belo Horizonte, ao seu traçado de tabuleiro, cheio de esquinas que infernizam os responsáveis por tentar organizar o trânsito, mas fazem a delícia dos que, como eu, curtem
o fim de tarde nas mesas colocadas no passeio, batendo papo com os amigos, observando o movimento, fazendo planos, escrevendo poesias, acertando contas, imaginando contos e conspirando sempre. Coisas de mineiro.

Belo Horizonte encarnou como nenhuma capital o espírito estadual, a nossa mineirice, e isso pode ser observado em suas esquinas.

Vejam, por exemplo, as esquinas comerciais que ainda resistem ao furor modernoso dos shoppings. São esquinas que contam histórias de outros povos. A imigração árabe, desde os anos 40, ocupou a maior parte das esquinas do centro da nossa cidade. Difícil encontrar uma que não seja
propriedade de alguma família que tenha quibes e esfihas no cardápio e no sobrenome. Nossos “batrícios”, quando aqui chegaram, já traziam na bagagem, junto ao tino comercial, a intuição do valor e
do significado das esquinas.

Elas foram sendo ocupadas por bazares, lojas, bares, mercearias, padarias, farmácias. Assim, para qualquer coisa, todo mundo tinha que ir à esquina. E lá todo mundo se encontrava, se via, se cumprimentava. Desses encontros nasceram times de futebol, passeatas, grupos de jovens, namoros, partidos políticos, movimentos cívicos, etílicos e gustativos.
Voltando a Brasília, talvez a arte política esteja tão decadente por lá pela falta de esquinas onde nossos homens públicos possam se encontrar para apreciarem o passar da banda, do povo, da História.

O mais incrível é que Brasília é obra de um mineiro que já fez muita serenata nas esquinas da sua Diamantina. Talvez, depois do golpe de 64, em seus momentos melancólicos de exílio, JK tenha se
arrependido de ter levado a prosa política do país para o imenso, solitário e desencontrado planalto central, de onde os nossos políticos sempre estão ansiosos para sair, em busca, quem sabe, de suas
próprias esquinas.

Mas a nossa Belo Horizonte, por ter muitas esquinas, possui, segundo dizem, o maior número de botecos do País. A esquina virou nossa praia. Tudo, ou quase tudo, que cariocas, capixabas e outros litorâneos fazem à beira mar o mineiro belorizontino faz à beira bar, nas esquinas. Quer um exemplo? Se Tom e Vinícius, numa esquina carioca compuseram a sua Garota de Ipanema, Milton, Brant, os irmãos
Borges e tantos outros nos deixaram como presente Travessia, Maria, Maria, e outras geniais criações do… Clube da Esquina.

As esquinas de BH já deram origem a verdadeiros marcos culturais.

A Banda Mole deve ter surgido em alguma esquina da Rua da Bahia, assim como, o reagee do Skank e o pop do Pato Fu, todos devem ter em sua árvore genealógica uma esquina ou uma contra esquina, que vem a ser o outro lado da
esquina. O rock pesado do Sepultura surgiu numa praça, em Santa Tereza, sendo que, na verdade, praça é o lugar do bairro onde se encontram todas as esquinas.

É interessante também como BH resistiu a algumas modas que outras metrópoles adotaram com fúria.

Viadutos, pontes, trincheiras, tudo o que se inventou para eliminar esquinas, por aqui demora a pegar. Até o metrô, que em outras paragens ignora esquinas em seu mergulho subterrâneo, em Belo Horizonte corre a céu aberto, de olho nas esquinas.

E, para provar definitivamente a minha tese, há uma obra prima de engenharia, um viaduto (a antítese da esquina) que salta o Arrudas e a Via Expressa, no antigo beco do Viola, ali na esquina do Carlos Prates e Padre Eustáquio com o Prado, e termina num muro! Termina mesmo, não há como seguir adiante, a saída é dobrar a esquina…

Só mesmo um arquiteto belorizontino para fazer uma obra assim!

Eu cresci frequentando esquinas. Democraticamente, lá estavam o boteco e a igreja. Lá me encontrava com a turma para jogar o futebol no campinho… da esquina. De lá vi a cidade crescer e tentar sufocar suas esquinas. Lá compro na banca o jornal que me diz, todos os dias, que as esquinas estão cada vez mais inseguras, perigosas, desumanas.

Mas a esquina permanece teimosamente na minha vida como um lugar que me humaniza. Lá aconteceram e acontecem os meus melhores momentos. Lá sinto-me pessoa, em meio a iguais. Lá posso exercitar o prazeroso ofício da palavra que, na verdade, nunca se joga fora.

O seu destino, quase sempre, é o coração do amigo, da amada, a esquina por excelência do nosso maior encontro.

Foi no meu coração, praça que se forma no encontro de todas as esquinas, que Deus encontrou-se comigo. É nessa praça que, todos os dias, passamos a vida a limpo, no diálogo místico-cotidiano da oração.

Pôr tudo isso, se você, leitor, leitora, um dia me procurar e não encontrar, pode seguir uma pista infalível pra localizar mineiro, em especial os que, como eu, nasceram, cresceram e vivem em Belo Horizonte: Vá ver se estou na esquina…!

Eduardo Machado
Agosto de 2002
Do livro: “Sobre todas as coisas”
Pgs. 57 a 60
EGL Editores Ltda
eduardomachadobh.blogspot.com

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Pode ser sobre qualquer cidade em qualquer lugar do mundo. Pode ser texto ou poema. 
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Deixe a gente se encantar com a sua história.
Um grande abraço, 
Sílvia Prata
Grupo Gente Feliz – Parcerias Ano 2018

Local das aulas:

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Toda terça-feira, das 14h às 16h30

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