Dizer não é dizer sim: arriscar o que é bom pra mim (por Bruno Mendes)

Somos atravessados por falas e atitudes de terceiros, com impactos garantidos em nossas vidas desde a mais tenra idade. Aprendemos que obedecer, não questionar, seguir a risca ordens dos mais velhos, dos hierarquica, financeira ou socialmente “superiores” é a estrada mágica para se dar bem na vida.

Bruno Mendes, psicólogo e psicanalista. Contato: 99479-9198

Na clínica, testemunhamos sem fim um manancial de histórias que mais parecem fábulas onde está sempre presente “fiz para não contrariar”, “fiz porque se não fizesse ia achar que eu não amo”, “fiz pra não incomodar”, ao que, quando interpelados(as), perguntados(as): “mas não tinha outro jeito de fazer isso, ou outro jeito, pra não fazer?”,
se veem diante de si mesmos dizendo, depois de torcerem o nariz e arquearem as sobrancelhas: “fiz porque não sei dizer não”, “fiz porque não consigo colocar limite”, “fiz porque não sei confrontar, não lido bem com conflitos”.

Optei por uma clinica através da qual as pessoas pudessem se encontrar consigo mesmas, com seus desejos, angústias, aflições, medos… e sobretudo, pudessem se encontrar com seus potenciais, com seus recursos próprios para encararem com melhor desenvoltura as jornadas da vida. Muitos(as) pacientes (pessoas que têm paciência para
enfrentarem o tempo com movimentos) costumam me dizer: “depois que eu venho aqui parece que você acendeu a luz, e o que estava oculto agora eu posso ver”, ao que, respondo: “eu não acendi luz nenhuma, apenas te convidei a perceber o quanto seus medos te impediam de abrir os olhos para ver o que você tanto temia. Agora, de olhos
abertos, você pode ver. Ainda te parece tão impossível visualizar isso?”. “Não”.

A opção por esse estilo clínico passa por diversos caminhos, inclusive, pelos caminhos que trilhei em minha relação com minha análise pessoal, segundo alguns proeminentes autores, melhor via na qual se dirige o tratamento dos(as) pacientes. Eu não poderia tolerar, depois de alguns anos de carreira, pessoas dizendo que não valeu a pena, que saíram não muito diferentes do que entraram, que depois de anos, se sentiam os mesmos.

Claro que isso afastou certas pessoas do tratamento comigo. Indagado por um querido e famoso terapeuta, quanto ao que eu queria com minha profissão, respondi que meu desejo era transformar a vida das pessoas, noutras palavras, acompanhar suas transformações a partir das descobertas de si mesmos(as), ser interlocutor durante seus processos de metamorfose.

Eu disse não à facilidade de não confrontar, de não entrar em conflito, de não arriscar contrariar os preconceitos e certos conceitos que entravavam suas vidas. Dizendo não, para isso (a facilidade de não confrontar, de não entrar em conflito, de não contrariar), acabei dizendo sim para aqueles que precisavam exercitar seus recursos para que pudessem, ainda que com medo, deixar cair as máscaras que escondiam suas faces, suas lágrimas, seus sorrisos.

Aprendo diariamente, com cada história de cada paciente, que dizer sim para estas facilidades, sejam elas fazer o que o outro quer ou espera de você, sejam elas se calar para não incomodar na tentativa infértil de garantir amor eterno, não funcionam. E quando ouço de pacientes “- Como eu saio daqui atualizado(a)!”, penso logo: “Imagina eu!”. A arte da clínica nos proporciona a possibilidade de atualizarmos nossas humanidades encarando escuridões e reacendendo sonhos.

Dizer não, as vezes, é colocar limite, é desmisturar-se daqueles que querem sentir por você, desejar por você, escolher por você. Dizer não, aí, é dizer sim, para si! Aventurem-se!



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