Já imaginou morar num lugar silencioso, tranquilo, como se fosse uma cidadezinha dos rincões de Minas, mas ao mesmo tempo próximo a todo tipo de comércio e em plena barulhenta metrópole? O que é um sonho distante para muita gente é a realidade dos poucos moradores da vila Panicali, no coração do bairro Carlos Prates, região noroeste de Belo Horizonte.

Nem todas as pessoas que passam pela movimentada rua Padre Eustáquio percebem os dois becos que dão acesso à tradicional vila, que completou 90 anos em 2017. O lugar foi fundado, em 1927, pelo casal de italianos Torquato e Seconda Panicali, donos da primeira fábrica de pregos em Minas Gerais.

As flores dão charme ao lugar. Foto: Paulo Henrique Lobato

É bom recordar que tanto o Carlos Prates quanto a capital devem muito à colônia italiana. Os imigrantes do país em forma de bota têm grande participação na colonização e no desenvolvimento socioeconômico do bairro e comunidades vizinhas.

Uma multidão de italianos chegou a então nova capital, entre o fim do século 19 e o início do 20, atraída pela política de incentivos e subsídios divulgada pelo governo brasileiro na Europa. Os primeiros grupos que vieram de lá eram camponeses. Ajudaram a transformar o bairro numa grande colônia agrícola que abasteceu BH por anos.

Mas também desembarcaram por aqui comerciantes de mãos cheias e homens dispostos a montar fábricas. Foi o caso de Torquato Panicali, que chegou ao Brasil em 1895, dois anos antes da fundação de BH. Ele optou primeiro por Juiz de Fora, na Zona da Mata.

Depois, de olho no eldorado que surgia com a construção da nova capital, se mandou para o que é hoje o Carlos Prates. Na década de 1920, o europeu abriu a Torquato Panicali & Filhos. E escreveu o nome na  história da indústria mineira ao montar a primeira produtora de pregos do estado. Panicali era visionário. Também não abria mão de ficar próximo a esposa e filhos.

Foi pensando na união da família e no futuro de cada um dos sete filhos que ele e a mulher ergueram, num dos terrenos mais altos do Carlos Prates, igual número de casas com espaço para o mesmo tanto de carros. Estava fundada a vila Panicali. Surgiu numa BH bem diferente da de hoje. A rua Padre Eustáquio, por exemplo, era uma estrada de chão, chamada de Caminho para Contagem.

A bibliotecária aposentada Maria Helena Santos, de 64 anos, é bisneta dos fundadores. Já ouviu incontáveis histórias da época em que o casal chegou à região. Mas ela também coleciona os seus causos. Maria Helena, quando criança, se recorda dos bondes que passavam em frente a vila. A última viagem completará 55 anos e já foi tema de reportagem neste portal (clique aqui).

A aposentada não esconde as lágrimas ao se recordar do tempo que não volta mais. “São lembranças maravilhosas, mas também tristes, porque várias pessoas já se foram”, diz Maria Helena, acrescentando que, na época de criança, não havia muros em frente às casas da Panicali.

Hoje, algumas paredes são cobertas por trepadeiras, o que dá um charme às ruelas da vila. Mas aquele tempo que ela tanto sente saudade não existe mais.

Helena: saudade de uma época que não volta mais. Foto: Isabella Souto

Por motivos diferentes, filhos e netos do italiano venderam os imóveis para outras famílias. Os que chegaram, garantem os descendentes de Torquato Panicali, são vizinhos de primeira. É o caso da família do aposentado Walmir Laguna, que hoje tem 69 anos de idade nasceu na vila.

“Meu avô chegou aqui com em 1939 (12 anos depois de Panicali fundar o lugar), quando meu pai era pequeno. Eu nasci aqui. Quando me casei, fiz questão de permanecer. Anos depois, meu pai se mudou para o Padre Eustáquio, mas eu fiquei. Só vou sair da vila para o Bonfim. E se Deus permitir, daqui a anos”, deseja ele, referindo-se ao cemitério no bairro homônimo.

Maria do Socorro e Aloísio chegaram há 23 anos. Foto: Isabella Souto

 

Walmir coleciona histórias sobre a região. Ele é da época em que a vila ficava entre dois tradicionais cinemas: o Azteca, em frente à praça São Francisco das Chagas, e o São Carlos, quase na esquina da Padre Eustáquio com a Nossa Senhora de Fátima.

O primeiro prédio foi jogado ao chão. Hoje é um terreno vazio. O segundo continua em pé, mas a construção está tão decadente que em nada lembra o glamour de quando jovens iam ao local em busca de paquera e para vibrar com as aventuras de Zorro. Este portal também já abordou o assunto (clique aqui).

Outros moradores chegaram depois do fim dos cinemas, mas fazem questão de dizer que morar na vila é como acertar a sorte grande na loteria. Há 23 anos, o casal de aposentados Maria do Carmo Nascimento, de 79 anos, e Aloísio Araújo, de 88 anos, soube de um amigo que havia um imóvel à venda. Depois de conhecer o local, não pensaram duas vezes em trocar o Santa Efigênia pela vila.

 

“Não há lugar melhor para se viver. Aqui é tranquilo, tem de tudo. Não ouvimos nenhum barulho da rua Padre Eustáquio. Não sairei daqui por nada”, garante Aloísio.

Flores colorem a vila. Foto: Paulo Henrique Lobato

Maria do Carmo ainda ressalta que, desde que vive lá, o bairro se desenvolveu muito e o comércio ficou diversificado.

Esta reportagem também foi publicada na edição impressa do Jornal do Padre Eustáquio. Se desejar sugerir uma reportagem ou anunciar sua empresa tanto no site quanto na versão impressa ou redes sociais, envie um zap para (31) 98477-7179.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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